A síndrome das coisas perdidas de Paraty



       Depois de percorrer a rua de pedras, ela entrou na fila dos Correios de Paraty, não para postar um cartão ou uma carta, mas para consultar os arquivos do “achados e perdidos”. Era para ajudar um amigo que tinha perdido a carteira no dia anterior. O amigo, muito feliz, fora de bicicleta para comprar uns pães de queijo na padaria do bairro do Caborê, decidira sentar para tomar um café, vira um saíra de sete cores voando, perdera a noção do tempo, do espaço e fora embora, sem o pão de queijo e sem a carteira. Como ele era francês, pedira ajuda para a amiga.
     — Eu gostaria de consultar a lista de achados e perdidos de vocês, pois um amigo perdeu a carteira dele ontem...
        — Olha, moça, a lista não está atualizada não, mas dá uma olhadinha aqui nesta caixa...
      A carteira não estava lá e a moça disse para que ela fosse até as Informações Turísticas, Defesa Civil, Delegacia e, que, enfim, voltasse à padaria. É verdade que ela e o amigo já tinham voltado à padaria, mas não tinham pensado na delegacia e na defesa civil.
      — Obrigada, vou dar uma olhada nesses lugares com meu amigo — disse e se foi.
    Quando subia pela rua principal, viu uma mulher descabela, empurrando uma mala, chorando desesperada. Ela perdera o ônibus para São Paulo. Não pôde ajudar, já estava em missão de ajuda. Parece que, naquele dia, o ônibus de Angra para São Paulo saíra as 13h30 em ponto, milagre, e a mulher, que confiava no atraso quase certo do ônibus, deixara para sair de casa na última hora. Daí perdera o ônibus e o dinheiro da passagem.
      A delegacia de Paraty fica no portal, aquele cuja placa diz que Jesus é o protetor da cidade de Paraty, ou algo assim. Será que a pessoa que deixou alguém colocar aquela placa perdera o juízo? Enfim, ela entrou na delegacia e aquilo lá parecia um filme de horror: as paredes mofadas caíndo aos pedaços, com um monte de gente que perdera a liberdade.
      — Moço, um amigo meu, francês, perdeu a carteira dele ontem, vocês encontraram alguma coisa?
      — Ah, não é aqui não... vai lá na Defesa Civil...
      — Onde fica?
    — Para aqueles lados do centro histórico — respondeu e foi mexer dentro de uma gaveta enferrujada, como se tivesse dizendo “cai fora”.
       Foi o que ela fez. Tenha santa paciência, que cara que perdeu a linha!
     Voltou tudo a pé, encontrou a Defesa Civil, nada, encontrou as Informações Turísticas e nada. Contou tudo pro amigo francês, mas ele, no fundo, já tinha perdido as esperanças. Dediciram esfriar a cabeça, tomar um café no boteco e ver a maré encher as ruas perto do cais. Quem já visitou Paraty, sabe que há uma igreja perto do cais que hoje é um museu. Pois bem, sentada na frente da igreja, uma senhora orava para que o filho dela, internado no hospital da cidade, não perdesse a perna — amputada —, para que ela, desesperada, não perdesse a fé.
       Soube, um tempo depois, por alguém que ficara internado dois dias no hospital por causa de um corte na perna, que o homem que perigava perder a perna tinha dado entrada no hospital para fazer uma operação ortopédica banal, mas que pegara uma infecção e ia perder a perna, duas semanas mais tarde, no hospital do Rio.
      A maré já estava bem alta — era lua cheia — quando ela e o amigo francês viram um rapazinho que jogava umas flores nas águas na frente da escadaria de uma outra igreja. Foram olhar de mais perto, pois era uma cena bonita danada de ver: aquelas florezinhas, feitas de folha de coqueiro, boiando na água, como se fossem as traineiras boiando na baía de Paraty.
      — É você que fabrica as flores?
      — Só... é os outros acham que pá... é coisa de gente rica... mas eu tô aqui ó... que bonito... saca?
    O francês e a amiga desejaram boa sorte pro cara, que parecia ter perdido as estribeiras. E as florezinhas seguiram boiando. Os dois entraram num convercê por conta da doideira do rapaz: o francês achava que os seres humanos estavam ficando malucos; que ele ainda esperava que uma alma boa mandaria, via Correrios, a carteira dele para França, pelo menos com os documentos; que era difícil encontrar um café bom na cidade e que, enfim, ele perdera o fio da meada e que era hora de mudar de assunto. Seguiram calados pela avenida que beira o rio, até a casa onde estavam hospedados. Antes de abrir a porta, ela sugeriu que fossem até Trindade no dia seguinte.
      — De ônibus?
      — É. É tranquilo — ela respondeu.
      ...
     — Nossa, você sabe que uns tempos atrás um motorista de ônibus perdeu o controle e o ônibus caiu na descida que vai para Trindade? — ela engrenou. — Mas agora eles refizeram a estrada, tá tranquilo, mas Trindade não é mais a mesma, perdeu o charme de antes... Mas ainda é bonito, tem aquela mata toda lá no Cachadaço... é, Cachadaço é uma praia. Então amanhã a gente vai lá, tá?
      — Anrã.
      Ele tinha perdido as palavras.
     Com tanta gente perdendo tantas coisas na cidade de Paraty, achava que só sobraram as palavras para serem perdidas. Estava enganado. Naquela mesma noite, na porta do teatro de bonecos, eu encontrei com ele e soube de toda esta história. Como Paraty era uma cidade legal, esse amigo francês acabou perdendo o rumo de casa (nunca soube se a carteira dele chegara mesmo lá na França), ele ainda mora na cidade, onde trabalha como pescador. Ainda perdeu peso, ficou bonitão e, o principal: perdeu o sotaque, que era feio de doer.


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