A lâmpada, a caixa e o Uaná

A lâmpada, a caixa e o Uaná

Assim que o homem colocou o dedo no botão, soube que algo novo estava por clarear. Duas semanas antes ele recebera — de um mensageiro em canoa — uma caixa “contendo uma lâmpada ligada à um fio e o fio ligado a um interruptor”. Teve de esperar mais uma semana até que, como uma cobra-cipó, um outro homem numa canoa gigante puxasse um outro fio mais largo e mais comprido através da floresta, do rio e da gaiola dos tatus. Seguindo as instruções, Uaná emendou o fio mais largo no interruptor e esperou. Esperou, olhando para o contorno ainda visível das árvores para além do rio que o faziam pensar numa onça empoleirada em uma apuí. Acendeu o cachimbo e aguardou que os olhos da bichinha apagassem. Então o céu empretejou. Uaná deslizou as mãos pelo fio, apertou o botão e a luz acordou: lânguida, ruiva, pulsando como o piscar da danada embrenhada no mato. O homem deu um pulo para trás, assustado com a imagem. O movimento provocou um leve balançar daqueles olhos em busca do melhor ângulo para atacar. Nem mesmo as muriçocas vieram espiar. Era preciso amansá-la. Fitou o luzeiro e pronunciou algumas palavras entre os dentes. Aos poucos, o titubear dos dois calmou num enorme pesar.
Uaná correu buscar uma caixinha feita de madeira da piranheira. A tampa, esculpida com uma alça, servia de batuque. O bate-bate da tampa na caixinha cantava mais bonito que um uirapuru. Para fazê-la cantar como o pássaro era preciso aprender, ainda menino, a ver a árvore no meio do mato, a cortar o galho certo, a esculpi-lo com uma faca afiada. E para aprender tudo isso era preciso ter um pai e o pai um pai que também deveria ter um pai. Uaná tinha tido todos esses pais. Assim que terminara de trabalhar a madeira, o menino agachou ao lado da água do rio e bateu, bateu até a lua murchar. Quando ela murchou o uirapuru respondeu, e respondia assim todas as noites, mesmo quando correu para buscar a caixinha. Voltou faceiro, distraiu o bichano com a música e acaixanhou o lume. Amarrou tudo com um ramo de mariri e foi dormir abraçado no vai e vem da rede. Cada noite ele revia o mensageiro na piroga e a cobra-cipó que trouxera-lhe aquela onça das outras terras, do lado de lá da gaiola dos tatus, do rio e da floresta. Mas ele não queria jogá-la no rio.
Um dia, um homem estranho chegou voando num grande ninho de xexéu. A boca do ninho também ficava voltada para o chão, mas embaixo da boca havia um cesto que “devia servir para segurar o passarinho que não soubesse voar”. Colocá-lo no céu era fácil: o homem soprava fogo na boca e o ninho voava com as labaredas. Uaná não teve medo do homem, ficou mesmo é curioso. “Talvez fosse o Pai dos xexéus”, pensou e deu para ele a caixa de presente, pois sabia que xexéu quando grita espanta até macaco-prego dos arredores da árvore. Talvez pudesse sumir com a onça acaixanhada. O homem foi embora num começo de noite sem luar. Partiu voando no ninho, carregando a caixinha de madeira. Uaná ficou olhando da beira do rio. Então lá do contorno das árvores viu o homem abrir a caixa. Dela brotaram mil lampejos pirilampando por cima da floresta. Uaná não sabia, mas naquela noite a onça dera a luz aos vaga-lumes.

--------------------
Escrito e inicialmente publicado para o curso de Ronaldo Bressane no MAM
(contosdomam.wordpress.com)

O PRESENTE

O presente

O porquinho-da-índia está no meu bolso, não se preocupe.
Não há nada além do papel deste banheiro para escrever algumas palavras. Tudo esbraseia. Quero lhe entregar uma bandeja com um croissant, uma taça de café e um porquinho-da-índia escondido embaixo de uma cumbuca. Estico a cordinha da descarga, turbilhonando a água.
O porquinho-da-índia está no meu bolso, não se preocupe.
Os gritos, o alarme, a correria e a fumaça. O banheiro é um bom lugar. Há de ser o melhor, mas a única escapatória escorre num redemoinho.
Lembra-se quando andava a sonhar com o bicho? A gaiola estava no corredor, embalada com um laço de fita,
Não se preocupe, o porquinho-da-índia está no meu bolso.
você carregava sempre a história para debaixo dos lençóis, eu adorava. Não levei a bandeja por achar o gesto vulgar e para não incomodar seus olhos num sonho profundo — você permaneceu em silêncio e havia de continuar assim —, ela ficou em cima da pia e a cumbuca com os restos de Corn Flakes, espero que não tenha se importado,
No meu bolso está o porquinho-da-índia, já disse para não se preocupar.
Gritar e correr, como faz o bicho das suas fantasias quando lhe falta do que comer. A água remoinha mais devagar, não tenho para aonde escapar. Escrevo-lhe depressa para que saiba que mesmo se tudo queimar, queria lhe presentear com o porquinho dentro da cumbuca. Não resisti, enfiei o bicho no bolso para entregá-lo quando o sol cessasse de atear. A ideia era melhor que qualquer palavra que eu pudesse sussurrar ao seu ouvido. Nem o café era mais saboroso. Só o seu sorriso nos meus olhos…
Para lá da porta do banheiro as palavras ardem. A fumaça invade. Olho para baixo, a água para de rodopiar. Tudo parece mais calmo. Já disse para não se preocupar. Tiro o porquinho-da-índia do meu bolso, num último gesto sobre tudo aquilo que gostaria de lhe falar — Te amei. Um beijo. — e puxo a cordinha da descarga novamente.

--------------------

Escrito e publicado para o curso de Ronaldo Bressane no MAM
(contosdomam.wordpress.com)

QUEM VAI TEM DE VOLTAR


QUEM VAI TEM DE VOLTAR

Outro dia me faltou um ovo no meio de uma receita de bolo de laranja. Se fosse lá na Vila Sônia, teria batido na porta da vizinha e pedido um emprestado. Como não há nada de Vila Sônia nessa paisagem bucólica de interior francês, tive de ir até a cidade. Cidade é um modo de dizer — assim diria um mineiro para exprimir quando vai ao centro, deixando bem claro que fora dele tudo é roça —, só tem uma quitanda chinfrim que abre das dez ao meio-dia, das quinze às dezoito e fecha às segundas e aos sábados à tarde. Eram duas horas. Já que o bolo ia desandar, decidi descer a pé até a cidade, apesar da espécie de malemolência que tomou meu ânimo assim que pensei na subida que teria de pegar na volta. Tudo isso por causa de um ovo que um bom vizinho teria me emprestado. Aqui, emprestado é emprestado mesmo. Teria que devolvê-lo, e com juros. Assim fui eu em busca do ovo.
Na curva, lá embaixo, um pássaro piou dizuí dizuí para me chamar a atenção. Desviei o olhar para tentar ver as plumagens, dentro dum oco atrás das folhagens só pude ver que não era uma arara, nem podia ser. Foi então que, no final da curva, dei de cara com a Senhora  empunhando o carrinho de compras caminho acima. Sorri e disse:
— Bonjour Madame! — embora para mim fosse Senhora. Sim, o nome, a idade, o jeito de vestir dela: tudo era Senhora. Chamá-la de Madame me dava vontade de rir. Madame soava como pano velho de chita engomado. Já Senhora tem um lado chique de quem deambula como se a mente flutuasse dentro de um balão de hélio amarrado à cabeça por um fio de pesca.
— Bonjour Mademoseill… — respondeu, engolindo o e por causa da canseira em puxar o carrinho caminho acima. — Como está você?
A Senhora morava antes da curva para quem estava descendo, mas não era uma vizinha. Fiquei com pena, peguei o carrinho e retribui:
— Muito bem Madame, obrigada. Ia descer até a cidade para comprar uns ovos e terminar um bolo, mas ele pode esperar. Vou acompanhá-la. — tinha a esperança que me ofereceria os ovos, daí eu não precisaria ir até a quitanda. Deixei a Senhora na entrada da casa, ela não disse nada sobre os ovos, agradeceu com um merci Mademoseill e fechou a porta.
E assim eu voltei pelo caminho em busca do ovo.
Quase na rua principal, perto da nogueira em guarda-chuva, vi raiar o sol atrás das nuvens empurradas pelo vento do Sul em sinal de aguaceiro. Bem abrigado sob a copa da árvore, Louis colhia as nozes do chão como uma galinha pinicando a terra: ele precisava rapar as botas para afastar as folhas antes de encontrar as bolotas de cor marrom. Estava a pinicar e botar uma a uma no cesto quando percebeu que a trama de junco tinha um furo. Um verdadeiro papo furado. Quando me viu, acenou e gritou:
— Ei, você pode me ajudar a colocar o saco em cima da bicicleta? Ele está rasgado…
Louis, além de vender nozes na feira aos sábados de manhã, trabalhava como policial municipal: postava-se três vezes por dia na porta da escola e ajudava os alunos a atravessarem a rua. Tinha medo que as crianças quebrassem os ossos por causa de algum maluco que passasse correndo de carro por ali. “O ovo Louis, meu ovo. O bolo Louis, meu bolo.” E respondi:
— Bom dia Louis. Eu tinha que ir lá na quitanda… enfim… preciso de ovos… Você tem certeza que não vai perder as nozes no meio do caminho? — e quando vi já estava puxando o papo. Louis agradeceu e foi embora pedalando a magrela. Algumas nozes caíram do saco, marcando o caminho de João.
Poucos minutos depois, cheguei na quitanda que cheirava a anilina. A dona, esfregando o azulejo, reclamou:
— A geladeira quebrou, eu só me dei conta agorinha, quando o cheiro pegou às narinas!
— E os ovos, Laura?
— Tive de jogá-los no lixo…
Quem vai tem de voltar. Forno sem bolo, bolo sem ovo. A chuva começando a pingar.
Na varanda havia dois potinhos: um com um punhado de nozes e o outro com cinco ovos e um bilhetinho dizendo Mademoseille, obrigada. Tua vizinha.
---------------------------------------
Escrito e inicialmente publicado no blog do Ronaldo Bressane, para um curso no MAM (contosdomam.wordpress.com)

PÉS DE VENTO


 Afficher l'image d'origine

PÉS DE VENTO

       A casa tinha as persianas azuis e um jardim verdejante, a partir do qual podia-se avistar um rio e as montanhas ao longe. O vento soprava o tempo por três, seis ou nove dias seguidos. Lá moravam duas meninas de cabelos castanhos, risonhas e sem os dentes caninos, que perderam na idade em que deveriam perdê-los.

      No quarto dia o vento parou de soprar. Era cedo, o sol tardava a apontar os raios atrás das montanhas. Era cedo, já estava na hora de ir para a escola quando uma das meninas disse :

              —  Manhêeeeeeee, espeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeera! — pronunciou assim mesmo, bem esticado.

              E a mãe respondeu :

              — Não espero não.

              Mas foi a outra que emendou :

              — Espeeeeeeeeeeeeeeeeeeera sim, a gente ainda não penteoooooooooooooooooooooooou os cabelos.  — e a voz mingou a caminho do banheiro.

              A mãe ficou na soleira da porta, balançando o molho de chaves na mão, segurando a porta com os pés para que ela não batesse e fechasse.

              — Vamos ? — perguntou a mãe, embora não tivesse desejado que soasse como pergunta. Mas já era tarde demais.

—    Espeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeera! — gritaram em coro.

              A mãe estava ficando nervosa, o frio estava de congelar os dedos, o que piorava a situação. O vento já tinha soprado o tempo, soprado muito tempo. E lá vieram as duas em pé de vento, como se disputassem cem metros rasos no corredor.

              — Espeeeeeeeeeeera, esqueci o livroooooooooooooo —lançou uma delas, já girando o calcanhar. E o vento soprando.

              Finalmente, quando voltou, a mãe já estava pensando em fechar a porta sair gritando o pulmão inteiro aos quatro ventos ou  na direção das montanhas e do rio e não voltar nunca mais. Mas esperou. Respirou. Olhou para o relógio e descobriu que naquele momento nascia o tempo do tempo.

              Era um novo tempo que só podia ser entendido pelas meninas risonhas e sem caninos, cujos cabelos voavam ao vento emaranhados ao tempo, doravante, por dois, quatro ou oito dias seguidos.

MOSHI

Moshi

Maneiro, supimpa, legal pra burro, do caraio, bacana, ótimo, irado, da hora. Aqui tudo é "poa!", que quer dizer tudo aquilo ao mesmo tempo. Tudo bem? Poa. Como vai? Poa. Oi! Poa. Uma hora depois a comida chega na mesa do restaurante. Poa. É, ela é poa, a sobremesa também é poa, o povo que passa na rua também é poa, o clima é poa, até o leão é poa. Tudo é tão poa que a gente decidiu ir passar o Natal na savana, convidar uma girafa para comer um punhado de nossa acácia de natal. Vou levar umas bolinhas de neve do Kilimanjaro, plantar nos espinhos das acácias e esperar o papai Noel chegar. Poa, não?
Os jacarandás, as primaveras e os flamboaiãs estão floridos, as moças passam carregando bananas em cima da cabeça, o moço vende abacaxi e os gnus já estão no sul do Seringuete. Tem uns caras subindo o Kilimanjaro, o guarda do albergue é um Massai e a Yami descobriu que ela ama Bob Marley, Buffalo Soldier e Médine, um cantor de rap francês. Poa.
Essa noite, logo antes do galo cantar houve uma procissão bizarra, o povo cantava em coro pelas ruas, o ventilador rodava no três e eu tinha a sensação que se tratava de uma missa católica ambulante as três da matina. Poa. Depois o galo do vizinho cacarejou e o outro também, os cachorros latiram e a mesquita lançou sua prece. Poa. O sol finalmente raiou e eu lá, deitada nesta confusão de pensamentos e cogitações. 
Hoje fomos à piscina com oito crianças do orfanato. Todo mundo pirou. O sol estava de rachar, as crianças não sabem nadar e a Kimi já fala "vem", "sim" e "não" em swahili. O resto do tempo ela passa falando "look", para as crianças verem a proeza dela no nado. Poa. Poa mesmo foi o café para me acordar, um antes e um depois do almoço, também lá na piscina. Frango frito e batata frita. Poa. Depois falam que na África a gente perde peso... As crianças beberam metade da água da piscina, pareciam comigo quando vi a neve pela primeira vez: como não dava para fechar a boca, por causa do sorriso, eu engolia neve e eles, água. Mas no problem, tudo poa. 
Jantamos carne ao molho de pimentão, umas folhas que lembram couve, arroz, abacaxi, manga e abacate.  A luz caiu. Voltou. Caiu de novo. Poa, todo mundo tem lanterna que carrega com energia solar. A energia voltou e o povo gritou: umeme! (eletricidade!) Poa!
O guarda que trabalha no turno da noite chegou, ele me disse poa Naiana! PoaJonny! 
O povo come ugali o dia todo (uma espécie de purê branco feito à base de farinha de milho) e tudo está poa. O povo anda seis horas por dia para ir e voltar do trabalho e tudo está poa. O povo ganha sessenta dólares por mês e a vida é poa. Dizem que os mais pobres são os mais felizes. É, deve ser por isso mesmo que quando não é poa é hakuna matata. E isso não é história para leão dormir. Poa. Quem vai dormir sou eu e, embaixo de um mosquiteiro, pois se tem um bicho que nunca é poa em lugar nenhum é pernilongo, ainda mais desses que têm por aqui: rajados de preto e branco, só para fingir que estão de pijama. Ou que são zebras...poa!

A síndrome das coisas perdidas de Paraty



       Depois de percorrer a rua de pedras, ela entrou na fila dos Correios de Paraty, não para postar um cartão ou uma carta, mas para consultar os arquivos do “achados e perdidos”. Era para ajudar um amigo que tinha perdido a carteira no dia anterior. O amigo, muito feliz, fora de bicicleta para comprar uns pães de queijo na padaria do bairro do Caborê, decidira sentar para tomar um café, vira um saíra de sete cores voando, perdera a noção do tempo, do espaço e fora embora, sem o pão de queijo e sem a carteira. Como ele era francês, pedira ajuda para a amiga.
     — Eu gostaria de consultar a lista de achados e perdidos de vocês, pois um amigo perdeu a carteira dele ontem...
        — Olha, moça, a lista não está atualizada não, mas dá uma olhadinha aqui nesta caixa...
      A carteira não estava lá e a moça disse para que ela fosse até as Informações Turísticas, Defesa Civil, Delegacia e, que, enfim, voltasse à padaria. É verdade que ela e o amigo já tinham voltado à padaria, mas não tinham pensado na delegacia e na defesa civil.
      — Obrigada, vou dar uma olhada nesses lugares com meu amigo — disse e se foi.
    Quando subia pela rua principal, viu uma mulher descabela, empurrando uma mala, chorando desesperada. Ela perdera o ônibus para São Paulo. Não pôde ajudar, já estava em missão de ajuda. Parece que, naquele dia, o ônibus de Angra para São Paulo saíra as 13h30 em ponto, milagre, e a mulher, que confiava no atraso quase certo do ônibus, deixara para sair de casa na última hora. Daí perdera o ônibus e o dinheiro da passagem.
      A delegacia de Paraty fica no portal, aquele cuja placa diz que Jesus é o protetor da cidade de Paraty, ou algo assim. Será que a pessoa que deixou alguém colocar aquela placa perdera o juízo? Enfim, ela entrou na delegacia e aquilo lá parecia um filme de horror: as paredes mofadas caíndo aos pedaços, com um monte de gente que perdera a liberdade.
      — Moço, um amigo meu, francês, perdeu a carteira dele ontem, vocês encontraram alguma coisa?
      — Ah, não é aqui não... vai lá na Defesa Civil...
      — Onde fica?
    — Para aqueles lados do centro histórico — respondeu e foi mexer dentro de uma gaveta enferrujada, como se tivesse dizendo “cai fora”.
       Foi o que ela fez. Tenha santa paciência, que cara que perdeu a linha!
     Voltou tudo a pé, encontrou a Defesa Civil, nada, encontrou as Informações Turísticas e nada. Contou tudo pro amigo francês, mas ele, no fundo, já tinha perdido as esperanças. Dediciram esfriar a cabeça, tomar um café no boteco e ver a maré encher as ruas perto do cais. Quem já visitou Paraty, sabe que há uma igreja perto do cais que hoje é um museu. Pois bem, sentada na frente da igreja, uma senhora orava para que o filho dela, internado no hospital da cidade, não perdesse a perna — amputada —, para que ela, desesperada, não perdesse a fé.
       Soube, um tempo depois, por alguém que ficara internado dois dias no hospital por causa de um corte na perna, que o homem que perigava perder a perna tinha dado entrada no hospital para fazer uma operação ortopédica banal, mas que pegara uma infecção e ia perder a perna, duas semanas mais tarde, no hospital do Rio.
      A maré já estava bem alta — era lua cheia — quando ela e o amigo francês viram um rapazinho que jogava umas flores nas águas na frente da escadaria de uma outra igreja. Foram olhar de mais perto, pois era uma cena bonita danada de ver: aquelas florezinhas, feitas de folha de coqueiro, boiando na água, como se fossem as traineiras boiando na baía de Paraty.
      — É você que fabrica as flores?
      — Só... é os outros acham que pá... é coisa de gente rica... mas eu tô aqui ó... que bonito... saca?
    O francês e a amiga desejaram boa sorte pro cara, que parecia ter perdido as estribeiras. E as florezinhas seguiram boiando. Os dois entraram num convercê por conta da doideira do rapaz: o francês achava que os seres humanos estavam ficando malucos; que ele ainda esperava que uma alma boa mandaria, via Correrios, a carteira dele para França, pelo menos com os documentos; que era difícil encontrar um café bom na cidade e que, enfim, ele perdera o fio da meada e que era hora de mudar de assunto. Seguiram calados pela avenida que beira o rio, até a casa onde estavam hospedados. Antes de abrir a porta, ela sugeriu que fossem até Trindade no dia seguinte.
      — De ônibus?
      — É. É tranquilo — ela respondeu.
      ...
     — Nossa, você sabe que uns tempos atrás um motorista de ônibus perdeu o controle e o ônibus caiu na descida que vai para Trindade? — ela engrenou. — Mas agora eles refizeram a estrada, tá tranquilo, mas Trindade não é mais a mesma, perdeu o charme de antes... Mas ainda é bonito, tem aquela mata toda lá no Cachadaço... é, Cachadaço é uma praia. Então amanhã a gente vai lá, tá?
      — Anrã.
      Ele tinha perdido as palavras.
     Com tanta gente perdendo tantas coisas na cidade de Paraty, achava que só sobraram as palavras para serem perdidas. Estava enganado. Naquela mesma noite, na porta do teatro de bonecos, eu encontrei com ele e soube de toda esta história. Como Paraty era uma cidade legal, esse amigo francês acabou perdendo o rumo de casa (nunca soube se a carteira dele chegara mesmo lá na França), ele ainda mora na cidade, onde trabalha como pescador. Ainda perdeu peso, ficou bonitão e, o principal: perdeu o sotaque, que era feio de doer.


VIAJAR


Viajar é uma experiência estranha: é ótimo, você descobre um lugar novo, com cheiros novos, sons novos, joga seu cotidiano pro lado e, principalmente, esquece do seu trabalho por uns dias. Ao mesmo tempo que você se deleita com esses prazeres, existe um outro lado da viagem sobre o qual quase não falamos. Quando, em meio aos novos cheiros e sons, olhamos para a paisagem ao lado, temos uma quase certeza de déjà vu. O coqueiro ali é muito parecido com aquele das praias do sul da Bahia, tem até cajueiros! Está com dor de garganta? Tome chá de alho com mel e limão. Até a língua, que no início parece indecifrável, tem um quê de déjà vu não porque ela está lá, presente todos os dias, mas porque você descobre, nos vais-e-vens das conversas, que mesa é meza e canga écanga. Então por qual razão viajar se, no fundo, vemos uma mistura de coisas já vistas? Por qual razão ir cada vez mais longe para descobrir um "mesmo"? Ao mesmo tempo que o cérebro está lá, cogitando sobre todo o dinheiro e o tempo que você gastou para chegar até aonde está, sobre o absurdo em fazer-se servir enquanto você passa o dia esticado numa rede vendo a maré descer e subir ou quando toma o chá das quatro dentro de uma barraca a cinco mil metros de altitude, tudo isso para conhecer mais uma praia, subir mais uma montanha, o seu cérebro sente uma espécie de prazer que não poderia experimentar em terreno já conhecido (será mesmo?) pelo simples fato que entre o cotidiano e o déjà vu existe uma grande diferença. Quem mora no Rio de Janeiro dificilmente olha para as montanhas todos os dias e diz "ohhh", como se todo dia fosse a primeira vez ou como se aquela vista fosse um déjà vu de algumas montanhas do norte da Tanzânia. Por outro lado, quando você corre (esporte) cotidianamente, você experimenta um prazer que é o de melhorar sua performance num percurso que, geralmente, é sempre o mesmo: você descobre cada metro do percurso para nele melhor correr...ora, por qual razão não fazemos o mesmo com as nossas vidas cotidianas? Talvez não precisássemos viajar dez mil quilômetros para descobrir que a flor de flamboaiã aqui ou ali tem o mesmo cheiro.
Contudo, mais a gente conhece estas sobreposições de déjà vus, mais a gente aprende sobre a unidade do mundo, sobre a diversidade que nos une (é, o papo é filosófico). Debaixo do flamboaiã daqui, pessoas de pele escura descansam nas horas mais quentes do sol, debaixo dos flamboaiãs de lá não há ninguém, só o mato que cresce. O coqueiro das praias da Bahia dão cocos que as pessoas bebem na praia, os coqueiros daqui dão cocos que caem na areia e ninguém dá a mínima bola.
São justamente os olhares e as intervenções dos homens que cá e lá habitam que transformam cada lugar em algo diferente daquele que você já viu. São nos detalhes que estão as diferenças. Mas só podemos vê-las se tormarmos tempo para conversar, ver, cheirar e andar por outros lugares ou por lugares que andamos todos os dias sem prestarmos muita atenção. As minhas terras têm palmeiras onde cantam o sabiá, e ao mesmo tempo o corvo daqui canta como o corvo de lá.

São Paulo





São Paulo tem um lance meio Tóquio
Um lance meio tralalá
Com tanta gente que vai
pra cá e pra lá.
São Paulo tem um lance meio radical
Um lance cheio de contradição
Com tanta gente em meio à poluição.


Nasci aqui
Vivi aqui
Mas nunca vou entender
o que faz esse povo amontoado
como um buquê.


Hoje vi um cachorro de roupa e sapatos. Andava trotando.
A dona vestia legging e botas de cano alto. Andava empinada. Cabeça erguida...
Como se sonhasse que o cão fosse um perfeito mangalarga marchador...

A QUÍMICA DA IDENTIDADE

             Pensar a questão da identidade de cada um ou de um coletivo do ponto de vista científico me parece bem interessante, principalmente em época de mil teorias sobre o porquê de tantos atentados terroristas no mundo ocidental.
            Lavoisier, um francês, "pai" da química moderna, disse um dia: "Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma". Foi ele quem descobriu que a água é formada de dois átomos de hidrogênio e um átomo de oxigênio. Morreu guilhotinado após as palavras do presidente do Tribunal Revolucionário: "A República não precisa nem de sábios nem de químicos". Na verdade a República não precisava de aristocratas. Então ele morreu não por ser sábio ou químico, mas por ser aristocrata. Mas como nada se cria, nada se perde, as moléculas do pensamento de Lavoisier continuaram a circular pelo mundo. Todo mal da República francesa era cortado, não pela raiz, mas pela cabeça. A simbólica é forte: corta-se aquilo que pensa e não aquilo que originou o pensamento. Não digo que deviam ter cortado os pés ou a cabeça de Lavoisier. Penso que, pelo menos, o ditado em português funciona melhor: cortar o mal pela raiz.
            No meu ponto de vista a identidade francesa foi forjada desses cortes simbólicos, dessa espécie de crença cuja hipótese diz que é possível tapar o sol com a peneira, como se cortar a cabeça de uns e de outros fosse essencial para a construção do identitário da República francesa. Daí começaram a colocar maiúsculas em todas as Ideias Humanas, das Luzes, Democrática Francesa. Vejam só: até os adjetivos pátrios se escrevem com maiúscula: sou Isso, sou Aquilo. Até mesmo os sobrenomes moldam uma parte essencial da Cultura francesa. Aqui, geralmente, as pessoas são chamadas primeiramente pelo sobrenome, que se escreve em letras capitais e depois pelo nome (ou nomes). O sobrenome vem sempre do sobrenome paterno e assim sabe-se que sou Isso, filho DISSO, tataraneto DISSO que vivia num pequeno povoado que resistiu às invasões Romanas, Italianas, Alemãs, Inglesas, Espanholas,...enfim, como se sou Isso DISSO fosse mais que o suficiente para dizer, aos olhos do outro, "olhe, ele lá é Isso DISSO, então é Francês" (sim, com maiúsculo). Aqui todo mundo chama Jean-Paul de SARTRE, Nicolas de SARKOSY, Angela de MERKEL e eu, de mademoiselle BUENÔ.
            Então imaginem que LAVOISIER Antoine, na verdade (na minha verdade) deve ter sido guilhotinado porque se seu conta que mesmo se "nada se cria, nada se perde, tudo se transforma", muita coisa na sociedade francesa não se transforma coisa nenhuma. Se Lavoisier ainda estivesse vivo teria perdido a peruca branca e estaria com os cabelos em pé! Muita coisa, na França, é feita, é pensada, é concebida com a finalidade de conservar essa identidade sólida, imutável. Boa parte daquilo que causa um movimento qualquer, nas bases desta inabalável identidade, perde a cabeça! (Não podemos exagerar...desde 1360 a moeda francesa era o Franco e hoje é o Euro ;o)). O país é laico, mas nas escolas ainda se fazem atividades extremamente centradas na Páscoa, Natal ou Carnaval. Todos os dias do ano é um dia de um Santo cristão.
            Um belo dia chega neste país um fulano que se chama Fulano de Coisa e Tal  e, coitado, é escorraçado quando vem, aperta a mão do Isso DISSO e diz : "Bom dia, sou o de Coisa e Tal Fulano", porque aqui é assim, para ser fino você diz primeiro teu sobrenome, claro. Mas de Coisa e Tal não soa francês e Isso DISSO faz cara feia.

            Sinceramente, se "nada se cria, nada se perde, tudo se transforma", a sociedade francesa, num todo, deveria se dar conta que sua identidade já foi transformada há tempos; que Fulano da Coisa e Tal é tão francês quanto Isso DISSO. A inclusão passa pela transformação das bases e não pelo corte de cabeça daquilo que é avesso. Brigar contra a transformação é resistir contra a inclusão, seja ela racial, cultural ou religiosa. Educação à diversidade é a aceitação que mudanças sócio culturais -e portanto mudança da identidade de uma nação- são possíveis e bem-vindas. Não estou aqui justificando os atos desumanos de uns fanáticos que o jornal estampa bem como chamando da Coisa e Tal, estou aqui dizendo que tapar os olhos com a peneira ou cortar o mal pela cabeça não resolve o problema. Problema, aliás, que não é somente que de Coisa e Tal seja um terrorista, mas que ele seja, sobretudo, um francês.

Ler um livro

            Antes, para ler um livro, eu precisava de um lápis de cor ou de uma canetinha, pois sem saber o som das letras achava que ler era colorir as imagens em preto e branco. Quando eram em preto e branco.
            Ler também já foi escutá-lo, contado pela boca de alguém ou de um toca discos, vinil colorido rodando trinta e três voltas por minuto, como se ler sempre tivesse um som, como se ler fosse ato não dos olhos, mas dos ouvidos. Essa leitura tinha sabor doce e sonhador, como o xarope da Mary Poppins.
            Ler foi escrever sobre as imagens, como aquele rato esperto que roeu a folha do livro, onde ele mesmo estava desenhado, para fazer um barquinho de papel e sair navegando pelo mundo. Mas as páginas do livro estavam sempre lá, nada foi roído ou molhado pelo mar.
            Quem nunca leu um livro sem parar, sem ver os ponteiros do relógio girarem e girarem? Quem nunca leu sem ler? perdendo a página marcada e sem saber se aquelas linhas já tinham sido lidas ou não?
            Ler resumo de livro. Isso é coisa de vestibulando moderno. Ler a versão incompleta. Isso é coisa de editora preguiçosa. Ler a tradução. Isso é coisa de monoglota.
            Já li começando pelo livro verde à esquerda da estante, aquele com os cortes dourados e um marcador de cetim, seguindo aos poucos para os livros da direita, mais recentes (vai saber por qual razão a gente sempre arruma os livros mais antigos lá em cima e do lado esquerdo), de capa branca, brilhante e com um marcador de livraria quem nem existe mais. Já li por cor: todos de capa ou de predominância azul. Já li porque a capa era bonita ou o título estranho. Já li só porque o título da capa estava escrito em vermelho, como se estivesse escolhendo um pimentão para comer.
            Pular páginas. Ler na transversal. Tem livro que é como uma novela: você perde um capítulo e tudo continua igual. Ler sem chegar no final. Desculpe, mas o "Cem anos de solidão" já foi e voltou várias pro lugarzinho dele na estante.
            Ler notas de rodapé[1], que sempre te obrigam a reler novamente todo o parágrafo ou a frase em questão antes de continuar. Ler por autor, por assunto, por ordem alfabética de título, ler por acaso. Ler o original, em francês, como se estivesse entendendo tudo. Já li muito Asterix sem saber que Asterix era astérisque, asterisco, Ideafix uma ideia fixa. Ler o final antes do começo, para surpreender o livro ao invés de deixá-lo te surpreender. Ler de trás para frente, num exercício constante de memória, uma espécie de futuro do pretérito. Ler em voz alta como se tudo estivesse escrito em maiúscula. Ler as entrelinhas. Ler de ponta-cabeça. O livro. Com as páginas abertas para um público mirim. Ler escorregando o dedão pelas páginas restantes só para saber se falta muito. Ler com prazo: até meia-noite e depois fecho o livro. Ler com descaso e comprar um mesmo livro duas vezes. Ler e reler. Ler e sublinhar, circundar, corrigir.

            Os modos de leitura são modos de integrar as estórias em nossas próprias histórias. Para isso deveriam servir as páginas em branco no final de cada livro: "este livro foi lido no dia tal, da seguinte forma, na seguinte situação". E só depois, lá no final o ponto final.
            E agora que você já leu todas essas linhas, vai lá, olhe qual livro está na estante, em cima e do lado esquerdo. Coitado. Não o esqueça, pois ele faz parte da tua história justamente porque você ainda não sabe como o lerá.



[1] Já leu, agora volta pro texto.